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Depois de Ver... O Dilema de Narciso

  • 12 de dez. de 2017
  • 3 min de leitura

Já cheguei a concordar com a Glória Maria e achar que na verdade o dia da consciência negra era um dia preconceituoso e segregador. Talvez o motivo para isso seja porque eu não percebia todos os meus privilégios, todo o processo de “embranquecimento”. Processo esse que eu sofria por ter a pele um pouco mais clara que a maioria negra, e por ter acesso ao ensino privado, no qual a maioria das vezes era o único negro da sala.


No dia da consciência negra eu era negro, o distanciamento que eu buscava durante todo o ano se diluía. E neste dia, a minha negritude, que só me era apontada em momentos de dor, como as piadas ou insultos ao meu cabelo, só neste dia me era apontado a todo momento. O que causava um choque imenso, pois o que estava construído no meu imaginário e no de todos que me cercavam era que negro era "o bandido", "o pobre", "o marginalizado"...


Mas o paradoxal é que, me perceber negro no dia da consciência negra, não indica que me sentia branco nos demais dias do ano. O tempo todo eu estava em um terreno cinza um lugar de não pertencimento. Lugar de uma identidade pouco definida.



Pessoas com, Gloria Maria e Morgan Freeman ainda são uma exceção como negros, por fazerem parte de uma elite minoria e por serem figuras públicas, sofrem pouco (ou nada) as consequências do racismo institucional em que vivemos. E que, talvez por isso, tenham a abordagem controversa de que o negro não começa a vida com pontos negativos na questão do privilégio só por ser negro.


Admito que nunca deve haver polarização ou segregação, de modo algum, mas o debate tem que acontecer. Que isso precisa ser discutido, debatido e lembrado, para tentar de alguma maneira equalizar essas questões, hoje tão desiguais.


Temos que nos assumir como humanidade, assumir nossas diferenças e aprender a viver com elas. Não acredito que a resposta seja fingir unidade e igualdade. Somos diferentes, em gênero, cor, orientação sexual, tamanho, religião. E enquanto não entendermos que "tudo bem" ser diferente, enquanto Narciso ainda achar feio o que não é espelho, viveremos nesses eternos conflitos. Tentando achar algo similar no outro para poder sentir alguma empatia. Sentir apreço por algo igual a si não há desafio, desafio mesmo é ver o outro sendo diferente e aceitar e “empatizar”.


E falo, da necessidade desse lembrança, desse debate, por que vi em meu tempo de vida certas coisas mudarem. Hoje posso ir a uma festa a fantasia. Por que tenho algumas (ainda poucas) referências pop para me fantasiar. Hoje me vejo vagamente na TV longe do jardim, ou longe do volante do carro, ou longe da favela. Consigo, esporadicamente, me ver em um terno na tv, e até alguns mocinhos da minha cor. E não como o alivio cômico, ou como o auxiliar submisso do bom moço, ou mesmo como vilão, como era o lugar comum.


E isso tudo, não foi graças a simplesmente deixar acontecer, esperar o tempo passar. Isso foi graça a luta de muitos. A luta pelas cotas, a luta pelo posicionamento através da critica. Ao boicotes ao Oscar e a grandes empresas e produções racistas. Graças ao debate, ao enfrentamento, ao diálogo.


Já tive o posicionamento do Morgan Freeman, já pensei como o Fernando Holiday. Mas isso apenas quando não percebia meus privilégios de ter nascido em um berço branco e de classe média. Hoje mudei muito meu pensamento a esse respeito, mesmo sabendo que o mundo mudou, mas ainda tem muito que mudar.

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